sexta-feira, agosto 11, 2017

Pai fresco

Olho pra você, menino, e penso no que fui, no que sou, no que serei.

Ainda outro dia eu catava mamona no terreno em frente pra guerrear com a vizinhança.

Não faz nem uns minutos eu deitava no chão do meu quarto e vibrava com a grandeza da cômoda.

Daqui a pouco eu sou um velhinho, talvez amparado por uma bengala.

O tempo se mistura quando eu olho nos seus olhos. Fica pequeno, fica eterno, fica o que é.

Sou pai. Sou o que sou, o que fui e o que serei.

Me peguei olhando pra cicatriz no meu joelho, resultado de uma ancestral queda de bicicleta... sinto as suas em mim.

Meio bêbado penso nos seus porres futuros e nos banhos gelados que você vai ganhar. Será que vou dar algum deles? Espera, Leo, tem tanta coisa pra acontecer antes...

Star Wars, Star Trek, skate, sono atrasado: acorda, menino! tá na hora!

Eu sou uma mistura do que sou, do que fui, do que serei.

Eu penso no meu pai, e enxergo, e finalmente compreendo.

Sereno, preocupado, homem.

Sonolento, acordado, pai.

Filho.

Presente.

Passado.

Futuro.

Benjamim, eu te amo.


terça-feira, junho 07, 2016

O começo do fim, parte 2 (a parte 1 vem depois, tipo Star Wars)





Semana passada escrevi um artigo que não postei.


Falava da minha impressão de que a hora de apontar dedos aos que tinham apoiado o impeachment tinha passado. A atitude devia dar lugar a outra. Estávamos em um momento didático em que os fatos cuidavam de mostrar as reais intenções dos orquestradores do golpe. Mais construtivo, dizia eu, seria sentarmos todos para conversar. Onde erramos? O que nos trouxe aqui? O que podemos consertar?


Repensei. Talvez soasse arrogante. Não postei.


Hoje alguém compartilha um tuíte do Fernando Meirelles, diretor de - entre outras coisas - Ensaio Sobre a Cegueira, filme baseado na obra de José Saramago que alude a uma sociedade onde nos fechamos de tal maneira à realidade (nossa e do outro) que nos tornamos cegos. A cegueira seria nossa incapacidade de sentir empatia. O filme arrancou lágrimas sinceras do falecido romancista.


No tuíte, o cineasta comemora os pedidos de prisão de José Sarney, Romero Jucá e Eduardo Cunha. “Agora sim o país está funcionando”, diz...não estou citando-o literalmente, leia o tuíte você mesmo.





Quando um artista do calibre de Fernando Meirelles (que fez outro artista do calibre de José Saramago ir às lágrimas adaptando obra sua) diz que o país vai bem porque, em uma manobra cinematográfica - ou melhor teatral, pelo exagero na interpretação da farsa - , três políticos correm o risco remoto de serem presos, ao mesmo tempo em que esquece, ignora ou omite que nessa mesma trama milhares de cargos foram criados, reajustes foram concedidos, manobras foram feitas em todas as instâncias para salvar outros políticos, juízes fazem vistas a pedidos de promotores de acordo com a própria conveniência, direitos fundamentais estão sendo riscados, este cidadão está cego.


Quando quem entra em briga pra medir que político ou partido roubou mais, ao mesmo tempo em que esquece que os políticos (TODOS) são financiados pelo capital é porque estamos todos cegos.

Fique com o exemplo ilustrativo e educativo do Boston Globe, que diz com todas as letras que “a Petrobrás será vendida” (é só uma questão de tempo), e dos seus leitores “esclarecidos” que aplaudem e afirmam que o mercado deve ser livre das amarras da regulação estatal, ao mesmo tempo em que ignoram que todas as grandes crises globais ocorreram nos períodos de menor regulação estatal.

Estamos todos cegos.


E quer saber? Isso é só o começo.


Estamos todos condenados.


Jurando que nossa voz será ouvida nos fóruns e espaços de comentário.




terça-feira, dezembro 01, 2015

Quando o aluno é quem ensina


Desde moleque eu ouço por aí, nas ruas, nos mercados, padarias e botecos, nas farmácias e nos pontos de ônibus, no JN e na Rádio Bandeirantes, nas capas da Veja e da FSP: o problema desse país é que não se pensa em educação.

Não tem nem um ano tinha gente na rua e nas sacadas batendo panela, pedindo cabeças, gritando que nesse país não existe educação.

Tiravam sarro do governo federal - e com razão - e de seu slogan publicitário "Brasil, Pátria Educadora".

Mas silenciaram diante do governo estadual, que anunciou cortes e uma "reorganização" feita de cima para baixo, sem consultar ninguém:  "problema de quem estuda em escola estadual". Ou como disse a distinta manifestante "contra tudo que está aí" que não me sai da cabeça: "a periferia que resolva os problemas da periferia".

Deu-se que meninos e meninas resolvem tomar a bandeira para si, assumindo essa responsa de gente grande de brigar pelo próprio direito.

Ocupam escolas. Cuidam do patrimônio como não se cuidava havia meses, anos. Limpam banheiros, recuperam salas, pintam paredes. Tratam a escola como suas casas e mandam o recado: vamos cuidar do que é nosso, e daqui ninguém tira a gente enquanto a gente não for tratado com respeito.

No rolê cívico, recusaram o apoio (interesseiro) das velhas entidades (UNE, UBES, UMES).

Essa briga é deles, não é das bandeiras velhas e encardidas.

Mas o governo decidiu que assim não pode ser.

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O governo do estado de São Paulo declarou guerra. Tem gravação do secretário de educação tratando meninos e meninas como inimigos, dizendo, como quem diz um palavrão, que as manifestações são políticas (como se brigar por educação não fosse mesmo um ato político, e como se isso não fosse justo e justificado, mas o ponto não é esse).

No dia seguinte, escolas que estiveram durante toda a manifestação cercadas de PM rosnando pra quem estivesse dentro e pra quem passasse do lado de fora, são invadidas por vândalos que depredam salas de aula, bibliotecas (quando existem) e outros equipamentos.

A imprensa "imparcial" insinua - em jornais, rádios e TV -  que os alunos são baderneiros.

Pais de alunos, diretores, padres, são convocados pra tirar a molecada das escolas.

Pais são colocados contra seus filhos. E engolem o golpe de um governador antidemocrático, fascista, violento, para quem nada mais importa senão a sua própria noção subjetiva de "ordem".

Mas seus filhos e filhas não arredam o pé. Herois e Heroínas, esses meninos e essas meninas nos ensinam uma lição esquecida.

Eles apontaram o caminho: resistamos, reivindiquemos nosso lugar, batamos o pé, derrubemos muros que separam classes e gente e ruas e calçadas e espaços públicos.

Ao povo o que é do povo, na boa, na coletividade, na humildade.

Mas com garra.

Com garra.


quarta-feira, agosto 05, 2015

Risada (Um argumento para roteiro do Porta dos Fundos)


É um restaurante. Fica na Vila Madalena. Serve comidas bacanas. Tem gente legal.

Em uma mesa, um casal conversa enquanto o garçom monta a mesa ao lado para receber um pequeno grupo, de quatro a seis pessoas. O casal já se sente um pouco tenso porque grupos de quatro a seis pessoas tendem a ser ruidosos. Mas é a Vila Madalena. É um restaurante que serve comidas bacanas. Que tem gente legal.

O grupo se aninha. Tudo gente boa. A conversa rola. Gente animada. Risadas. Mas tem uma risada...

O homem franze o cenho com o olhar perdido. A mulher olha para o homem. "Que foi?!". Homem cochicha

- Essa risada...
- Que que tem?
- Presta atenção...

É uma daquelas risadas esquisitas. Talvez seja a risada mais esquisita que qualquer um já ouviu.

- Caramba! - é a mulher que diz isso.
- É - comenta o homem com o cenho franzido. E procurando o garçom.

O garçom se aproxima. "Pois não?". E o homem faz menção de começar a explicar, quando uma nova risada reverbera no ambiente. O homem só ergue as duas mãos pateticamente, como que dizendo que seu caso é óbvio "não entendeu?!". Claro que o garçom entente.

Com as duas mãos espalmadas na direção do homem, o garçom pede calma e se retira. O homem olha para a mulher erguendo as sobrancelhas em sinal de dúvida. A mulher não esboça nenhuma emoção aparente enquanto pisca duas vezes ao som da risada. Aquela risada.

O homem vê o garçom saindo da cozinha acompanhado de um outro homem. O garçom cochicha no ouvido do outro homem, que olha para o primeiro homem com piedade. Ao mesmo tempo, a risada, aquela, ecoa mais uma vez. O outro homem olha para o espaço. E franze o cenho. E ergue a mão direita para o homem como quem diz "deixa comigo".

Ele se dirige à mesa onde nascem as risadas e pede licença. Se apresenta:

- Boa noite. Meu nome é Alfredo e eu sou um consultor. Posso me sentar?

A mesa permite, pela estranheza que um consultor causa em um bar. Simpaticíssimo, Alfredo explica que tipo de consultoria ele presta:

- Bom, gente. Eu sou um consultor de risadas. E a sua (aponta o objeto de discórdia) simplesmente não funciona em lugares públicos...

A pessoa objeto de discórdia não entende bem o que está acontecendo:

- Desculpa...Num...tou...entendendo (à moda Porta dos Fundos)
- Sua risada é muito FEIA!
- Como assim feia?!
- Olha - o outro homem puxa um gravador e mostra a risada para a pessoa - percebeu?

Momento tenso: a pessoa não acha que sua risada é feia. E desafia o consultor:

- Não acho não, né gente?!

Os amigos se dividem entre defensores inseguros e defensores contrariados: "é...ééé...poizéé...". O que causa espanto na pessoa:

O outro homem:

- É, então. Você tem uma risada muito feia...

Pessoa incrédula, mas silenciosa

- Olha, sua risada é uma bosta, mas pode melhorar. Pra começar, vamos treinar respiração... pra tirar esse ahuuuuuuuuuu, entre cada risada.

Paciente treina.

- Agora vamos treinar vogais. A vogal é importante pra dar ênfase na risada. Por exemplo, se é uma risada mais leve, um rárárá funciona. Agora, se é um evento mais sério, é melhor usar o I, hihihi. Mas se você está entre amigos, no particular, ou mesmo durante um orgasmo, e dá pra escrachar mesmo você pode usar o "o". Vamos tentar? Rôô Rô Rõ

A essa altura todo o restaurante está em volta do consultor, treinando sua própria risada.

Enquanto isso, o consultor vira para a câmera, quebrando a quarta parede:

- Gente, risada é coisa séria. Não dá pra rir de qualquer coisa. Tipo, cor da pele, imigrante ilegal, orientação sexual... Não dá pra rir. Agora (a partir daqui o texto é acompanhado de claques tipo Os Trapalhões), meu salário, o vizinho que acha que escreve e que pensa que todo mundo é comunista ou o outro que pensa que "bom mesmo foi a época dos militares"... isso dá pra rir sim. Libera!






quarta-feira, junho 24, 2015

Bexigas


 - Mas rapaaaaz, como você enche bexiga depressa! (para os não paulistas: bexiga = balão de festa)
- E olha que eu sou ex-fumante...
- Não brinca!

Era séria a coisa: rapidamente as bexigas iam se amontoando no chão. Ele bem que sentiu que a cada fôlego que ele tomava sem tirar a bexiga da boca, algo voltava para sua garganta. Não importava. Tinha plateia.

No dia seguinte à festa, acordou com uma tosse chata, dessas que fumante tem ao sair da cama. "Coisa estranha", pensou, mas não deu bola. Saiu de casa e subiu a ladeira até a estação de metrô. Foi um custo. O fôlego acabou no meio da subida. Teve que parar. Algo estava errado.

Conseguiu um encaixe para aquele dia mesmo num pneumologista indicado por um colega do escritório. Quando chegou no consultório tossia muito. Uma tosse seca, que arranhava a garganta. Quase não conseguiu falar com o médico quando ele o chamou:

- cof! COOOOOF! Sou eu.. coooof!
- Fumante?
- Ex...ooooooofff! cof!
- Tome um pouco d´água - sorveu o líquido de uma vez.
- Quando começou essa tosse?
- Na segunda-feira. Domingo eu enchi umas bexigas, e...
- Bexigas, você disse?! Lembra a marca?
- N-não... Era pra lembrar?
- Isso explica o... Veja o senhor mesmo.

O médico pegou um espelhinho e entregou para o homem, que olhava incrédulo para a própria imagem.

- Meu nariz...tá vermelho e arredondado.
- O senhor está nos primeiros estágios de... PALHACITE!
- Pa... Que diabos é isso, doutor?!
- Eu pensei que essa marca de bexigas tinha sido banida há muitos anos...

De olhos arregalados, o homem procurava entender. Olhou para o espelho novamente. Seu cabelo estava ficando laranja e sua pele estava ficando branca.

Começou a gargalhar.


quinta-feira, junho 18, 2015

Um resumo das coisas até aqui...(editado para quem foi adolescente nos anos 1990 e para quem é adolescente hoje e para durar 10 anos)


(importante: ainda que extremamente pessoal, e ainda que eu fale de gente que me tocou o coração de forma profunda, não vou citar nomes nessa crônica. quem está aqui sabe que está aqui. quem não está aqui, certamente está em outro capítulo. um beijo para cada um de todos nós.)



Era 1991 e meu pai chegou em casa com a notícia: fora convidado para trabalhar em um hotel em Porto Alegre.

Morávamos em Ilhéus tinha 9 meses, e a primeira pergunta da minha mãe foi:

- Lá tem praia?

Não tinha. Lá tem rio - que não é bem um rio, mas aí é outra história.

Eu não esperava muita coisa da mudança. Você não espera muita coisa quando tem 12 anos. Especialmente quando você tinha acabado de sair de São Paulo para morar em outra cidade e em outro estado. Aquilo era só uma continuidade na mudança.
Meu pai foi antes, e alugou um apartamento na Ramiro Barcelos - em frente ao Hospital de Clínicas -literalmente no escuro: era noite e a luz estava cortada. O apê precisava de reformas, então ficou acertado que ficaríamos um tempo no hotel.
Chegamos em outubro e fazia um frio de lascar, de inverno tardio, de "renguear cusco", como me explicou um amigo que apontou um cachorrinho tiritando de frio na rua, num inverno posterior:

- Tá vendo o cusco? Tá rengueando de frio.

Eu estava terminando o primeiro grau, minha irmã estava na antiga quinta-série, e meus pais tinham um problema, resolvido pelo IPA, que nos acolheu mesmo sendo fim de ano.

Foi meu primeiro contato de fato com meninos e meninas riograndenses. Não conto as primeiras tardes de domingo vendo a juventude tomando milk-shake no Rib´s , porque eu era muito novo para me enturmar.

Logo depois de nos mudarmos para a Ramiro, um primo de São Paulo veio nos visitar. Saímos um dia de casa no meio da tarde, atrás de um lugar que servisse um x-burguer.

1. A gastronomia rio-grandense.



Encontramos um trailer que servia lanches. Depois de consultar um cardápio em que todos os lanches incluíam "salada, ervilha, milho e ovo" pedimos um x-burguer: pão, hambúrguer, queijo:

- Mas sem ovo?
- Sem.
- Sem ervilha e sem milho?
- Sem ervilha e sem milho.
- SEM MAIONESE, GURIS?
...

2.
Em 1992 eu estava matriculado no primeiro ano do curso técnico de contabilidade do Colégio Protásio Alves. Não pergunte.

Foi a época em que o Nirvana estourou pra valer no Brasil. Junto com Soundgarden, Pearl Jam e outras grandes bandas de Seattle. Eu ouvia Depeche Mode. Todo mundo usava camisas de flanela xadrez. Eu usava jaqueta de couro e coturno. Comprava meus vinis no Brique da Redenção.

Na mesma Redenção fica a Igreja do Santíssimo Sacramento e Santa Terezinha. Num dia passei pela porta da igreja e vi um grupo de guris e gurias reunidos, tocando violão. Me juntei a eles e não me senti mais sozinho.

Em 1993 eu conheci mais gente que gostava do Depeche Mode, do New Order, do Pet Shop Boys. Nós e mais um monte de gente começamos a organizar festas para as quais vinha gente da cidade inteira. Uma delas foi especial porque foi onde eu beijei uma guria pela primeira vez. Não sei se ainda era 1993 ou se já era 1994, mas sei que eu já era conhecido como "Paulista", e andava pra cima e pra baixo com um amigo que também gostava de Monty Python e dos filmes com o Leslie Nielsen. Íamos montar um grupo de teatro e dominar o mundo.

3.
Em 1994 eu disse para o meu pai que queria arrumar um emprego:

- Eu acho que vai ser legal eu ter o meu dinheiro. Comprar meus discos. Minhas revistas.
- Vou ver se sei de alguma coisa.

Comecei a trabalhar em um quiosque no Quinta Avenida Center, na 24 de Outubro. O quiosque vendia cervejas do mundo todo, em um tempo em que quase ninguém bebia cervejas do mundo todo.

Na frente do quiosque tinha uma cafeteria, e a filha da dona era uma graça. E a gente ficava se olhando, mas nada acontecia nem aconteceu. Atrás do quiosque tinha um lugar que fazia um cachorro-quente muito bom, e matava minha fome quando tinha que trabalhar eventualmente aos sábados.

Eu passava as tardes nesse quiosque. Como eu ficava sozinho podia receber amigos, que se revezavam nas visitas e nos papos... Me sentia o Carlos Alberto da Nóbrega, em A Praça e Nossa. O quiosque era meu banco de praça.

Foi lá que eu conheci os caras da primeira e única banda da qual fiz parte.

Era uma banda de música industrial, inspirada no Neubauten.

Ensaiávamos no bairro São Geraldo - também industrial - aos sábados. Uma vez, ensaiamos na porta de uma retífica que - não sabíamos - estava aberta. Empolgados com o ensaio, não percebemos que fomos cercados de mecânicos curiosos com o barulho. Quando paramos, fomos aplaudidos pelos mecânicos, que estavam saindo do trabalho.

4.
Em 1994 o Brasil ganhou a Copa do Mundo depois de um tempão. Nós morávamos num apartamento na Felipe Camarão e eu convidei um monte de gente para ver a final em casa. Muitos não tiveram estômago para acompanhar a cobrança de pênaltis que deu o título. Na verdade eu acho que só um cara acompanhou. Só olhamos quando ele gritou:

- Acabou!

Nos juntamos à multidão na Avenida Goethe. Não lembro a que horas eu cheguei em casa.

5.
1995 foi o ano da minha primeira cerveja com meu pai. Foi num apartamento no número 535 da Felipe Camarão.

Nesse ano eu fui trabalhar em uma videolocadora, na esquina da Vasco da Gama com a Fernandes Vieira. Os donos da locadora tinham um negócio paralelo de venda de produtos da AmWay, e não gostavam que os funcionários se relacionassem fora do expediente, mas a gente se relacionava mesmo assim.

Às sextas a gente se encontrava na esquina de baixo e ia para o bar mais próximo.

Depois da locadora eu fui trabalhar na agência de turismo de um amigo meu, do lado da igreja, que ficava em alguma rua ali do Bom Fim a qual não me recordo.

6.
Em 1996 meus pais compraram uma cafeteria e minha irmã e eu fomos ajudar a tocar o negócio. Eu sonhava em estar fora dali e estudar jornalismo, estourar, ser o próximo... Próximo quem? Eu ia ser o cara mais fodão do mundo, tocando na banda mais fodona do mundo e escrevendo os textos mais fodões do mundo. Enquanto eu sonhava, tocava os sons mais malucos que já tocaram em uma cafeteria. Também escrevia coisas malucas na placa que ficava do lado de fora da cafeteria. Eu ia ser escritor, não ia?!

7.
Em 1997 eu namorei garota. E comecei a estudar jornalismo na Famecos. Em 1997 eu ia dominar o mundo. E a gente começou a acessar a internet em casa.

8.


Em 1998, um amigo da faculdade começou a estudar HTML pra gente fazer um projeto que ia juntar jornalismo, relações públicas e publicidade num único troço sem nome na internet. Íamos dominar o mundo. Vi pela primeira vez o clipe de Into My Arms do Nick Cave no Set Universitário, quando ia participar de uma oficina de Making Of, e chorei muito.

Neste ano, o hotel onde meu pai trabalhava foi vendido. Neste ano, vendemos a cafeteria.

Em 1999, meus pais voltaram pra SP e eu fiquei em Porto Alegre.

Em 1999 aconteceu uma baita crise e o dólar disparou, quebrando muitos negócios que contavam com a paridade do Real com a moeda estadunidense, turismo incluso.

Eu trabalhava com turismo. E só não passei fome por um tiquinho assim. E por causa de amigos muito queridos.

9.
Em meados de 1999 eu não aguentei ficar sozinho em Porto Alegre e voltei pra São Paulo. A primeira coisa que minha mãe me disse quando me viu descendo do ônibus no Tietê foi:

- Meu filho! Como você está magro! Tá tudo bem com você?

Eu não quero dizer "Foi estranho voltar para o bairro onde cresci depois de mais de 10 anos" porque isso não é esteticamente interessante, mas foi estranho voltar para o bairro onde cresci depois de mais de 10 anos.

Naquela época eu fumava, e para passar o tempo enquanto não arrumava um emprego eu fui pintar as grades da casa (um portão na garagem, grades nas janelas, um outro portão nos fundos). Meu cigarro acabou, e não tinha dinheiro em casa. Fumei bitucas do cinzeiro. Jurei que era a última vez que fazia isso. Deu certo, mas isso é outra história.

10.
Fui trabalhar numa agência de turismo na Freguesia do Ó, bem no meio do bairro. Era uma agência que atendia seguradoras, então a gente tinha que trabalhar em esquema de plantão. Eu peguei o plantão na virada de 1999 para 2000. Quis morrer.

Perto dessa agência tinha uma birosca, uma mistura de mercadinho e bar. A gente saia da agência, parava ali para tomar uma cerveja, comer salame com limão, falava um monte de bobagem e voltava pra casa. Num dia daqueles um sujeito apareceu com uma arma, perguntando de um outro sujeito que, por sorte, não estava lá.

11.
Mudamos para a Av. Nossa Senhora da Lapa e eu cansei de trabalhar na agência, especialmente por causa do esquema de plantão, que me obrigava a atender ligações no meio da noite. Numa dessas passei o fim de semana atendendo um sinistro, como as seguradoras chamam suas ocorrências, em que um catarinense quebrou as duas pernas e os dois braços esquiando em Aspen. Achei o fim da picada.

Pela segunda vez graças ao meu pai, arrumei um outro emprego, agora numa empresa de TI. Era 2001.





sexta-feira, junho 12, 2015

12 de junho de 2003 - 12 anos de reforma.


Renata achou de ir morar comigo num kitinette na rua Paim faz 12 anos. Parece que foi em outra vida, mas é a mesma, mas é bem melhor hoje.

Rodamos mais de um milhão de quilômetros, somando realidade e sonho.

Falamos um zilhão de línguas, vivas e mortas. Entendemos muito pouco. E um bocado.

Discutimos tapetes, cortinas, lençóis. Transamos um bocado dos últimos. E usamos toalhas depois de tudo.

Trocamos louças e panelas; vieram e foram jogos de chá. Trocamos sofás mais do que qualquer casal na vida já trocou em tão curto espaço de tempo, mas os sofás ainda vivem, alguns na casa de amigos, outros na casa de amigos de amigos.

Sonhamos filhos, filhotes de bichos. Ainda temos planos para todos eles.

Planos, aliás, temos aos montes.

Ainda agora discutíamos onde ia tal quadro, onde ia tal tapete novo. Tudo isso depois de uma reforma cansativa, como são todas as reformas.

Menin@s, entendam: relacionamento não é nada se não se é capaz de fazer planos.

Se a gente não tivesse a capacidade de fazer planos, tinha desistido na primeira noite naquele kitinette apertado na Rua Paim onde, como a Renata mesmo fala, só existia privacidade fechando a porta do banheiro.

Como é incrível estarmos, 12 anos depois, reformando banheiros.

E fazendo planos.

Te amo, Renata!