Você já deve ter ouvido que bêbado tem anjo da guarda forte, que nem criança.
E bar tem essa coisa que, de repente, em um espaço de poucas horas, o caos pode se instalar e ir embora em minutos. É quase como uma sessão do Conselho de Segurança da ONU: o apocalipse quase acontece, vidas quase acabam e, do nada, tudo volta ao normal.
Foi mais ou menos assim que aconteceu.
Jogo da copa, todo mundo ali dando seus palpites. Chega um sujeito que ninguém nunca viu antes mas, normal…tempo de copa, todo mundo querendo ver um jogo… pode chegar um estranho de vez em quando.
O estranho senta no bar e pede: “um Domecq”. Pedido ousado, diferente, mas vá lá… É servido, e logo emenda: “e uma Original”.
Quem administra ou frequenta um bar com assiduidade sabe que pedidos envolvendo destilados e fermentados entregam dois perfis possíveis. Ou é alguém que sabe o que está fazendo, que navegou décadas de alcoolismo pelos sete mares, ou é só um bebum que, mais cedo, mais tarde, vai dar vexame.
Quase sempre é o segundo caso.
O primeiro Domecq foi sorvido como um copo d’água no deserto do Atacama e foi logo seguido pelo segundo, que soltou os músculos da simpatia no vivente. Que imediatamente virou um chato.
Há muitas categorias de bêbados chatos, mas talvez uma das mais irritantes seja o mentiroso meloso. Esse é aquele que quando está de porre vira rico, comeu todo mundo, sabe tudo e resolveu os problemas de toda a humanidade, e ele conta tudo isso com uma voz pastosa, olhos meio fechados, sem controle sobre o volume da voz (grita e sussurra na mesma frase). O estranho era desse tipo, mas ainda não tinha liberado todo o seu potencial.
Depois do segundo Domecq e da terceira Original, o pinguço - que já estava sendo ignorado pelos frequentadores - resolveu ligar para a companheira que berrava no celular para que ele fosse para casa.
Essa foi a primeira grande surpresa da noite: o pau d’água tem uma mulher!
A segunda grande surpresa foi que ela apareceu no bar.
- Você vai pra casa - disse a mulher.
- Vou terminar meu goró aqui - retrucou o bebum.
A mulher respondeu jogando a terceira dose de conhaque na sarjeta. O sujeito desafiou:
- Agora você paga que eu vou tomar mais uma - e ganhou uma sobrevida
E aqui reside outra grande sabedoria etílica: em um momento o bêbado fica tão seguro que nada importa mais que a próxima dose, nem a possibilidade de levar uns tapas e ir dormir no sofá.
E assim foi a mulher. E assim ficou o chato. E assim veio mais um Domecq.
E também veio a conta, que o chato pediu em um momento de lucidez. Sessenta e três e trinta.
E ele tentou pagar.
Foram três tentativas aproximando o celular seguidas de um apagão. Aí ele acordou:
- Vou embora. Quanto eu devo?
- 63,30
- Vou pagar
Mais um apagão.
O Toninho, garçom do bar, chegou com jeito. Tem que pagar! O pinguço deu o celular pro Toninho que tentou fazer um pix sem sucesso. O banco pediu confirmação da biometria mas o bebum não conseguia firmar o corpo, ou o rosto, que estava pastoso. Novo apagão.
Foi quando chegou o Pedrinho, frequentador antigo.
- Vou chamar a polícia, peraí.
Ninguém acreditava que ia pintar polícia naquela altura do campeonato, mas o Pedrinho é foda. Dois PMs entraram no bar e um terceiro ficou na porta,.
E aconteceu que o bebum era conhecido da polícia por ter dado uns tapas na esposa:
- Esse a gente conhece… paga a conta e vamos pra casa… e vê se não vai bater na mulher!
- Vou pagar… quanto deu?
- 63,30
E claro que não deu certo.
Pedrinho arrependido de chamar a polícia, clientes pedindo a conta, Alemanha perdendo do Equador. Caos. Até que o Matheus - dono do bar - falou:
- Só quero que tirem esse cara daqui, depois a gente cobra.
A PM levou o bebum pra fora, que obviamente não estava entendendo nada, e foi embora.
E aqui começa o grande milagre. Desses que fazem você acreditar que todo bebum tem um anjo da guarda.
Enquanto a viatura ia embora, um carro encostou na esquina. O motorista grita: “entra!”. Era um amigo do pinguço.
O segurança do bar aborda o motorista:
- Ele está devendo 63,30!
O motorista diz que vai pagar. Para o carro e entra no bar.
E o Toninho grita:
- Eita! Jeová!
Os dois se conheciam. Jeová era cliente do Toninho de outro bar, anos antes. Teve abraço até.
Jeová, amigo do Toninho, salvou o bêbado.
E ninguém sabe se ele bateu ou se apanhou em casa, mas todo mundo torceu pra ele ter apanhado, pra ter suas coisas jogadas na rua, e pra ter o cú comido por um cachorro sarnento.
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